Na última semana de maio, a UFJF promove a segunda edição do seminário “Repensar a universidade: renovar a prática acadêmica”. O objetivo do encontro é propor uma reflexão acerca da evolução da busca pelo conhecimento dentro da universidade através de debate entre seus atores.
O evento ocorre entre os dias 28 de maio e 1º de junho, sempre às 19h, no Anfiteatro da Reitoria. A participação, gratuita, é aberta a toda a comunidade acadêmica, mediante inscrição. Os interessados podem acessar o formulário de inscrição e a programação do evento, clicando aqui. É possível participar de cada uma das palestras separadamente.
Segundo o pró-reitor de Graduação e organizador do evento, Eduardo Magrone, “a ideia do seminário é fazer com que a instituição pare para pensar nela mesma, e possa decidir sobre as mudanças necessárias com mais densidade, mais profundidade, sabendo exatamente aquilo que está fazendo. Buscamos realizar um debate sobre as mudanças que estão ocorrendo no ensino universitário, tanto brasileiro quanto estrangeiro”.
Em setembro do ano passado, a UFJF promoveu a primeira edição do seminário. Na ocasião, foram apresentadas questões como o modelo universitário da Europa, avaliações aplicadas e interdisciplinaridade. “Apesar de contarmos com uma presença qualificada em 2011, esperamos atingir um público maior nessa edição”, diz Magrone. Ainda segundo ele, a soma dos debates das duas edições resultará em um livro, que pode servir como instrumento às direções pedagógicas em suas próximas decisões relativas às adequações no ensino universitário.
Programação
Durante a programação, diferentes temas serão colocados em pauta. No primeiro dia, o reitor Henrique Duque abrirá o ciclo de palestras juntamente com Eduardo Magrone. Em seguida, o professor Aloísio Teixeira, ex-reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) apresenta o tema “O que é uma universidade?”.
Na terça-feira, a professora francesa Anne Marie Autissier, da Universidade de Paris VIII, fará uma exposição sobre os rumos das universidades europeias em meio à crise. O coordenador de Programas de Pós-graduação Stricto Sensu da UFJF, Alexander Moreira de Almeida, ficará responsável por apresentar o panorama nacional e secretária de Comunicação da UFJF, Christina Musse, media o debate.
No terceiro dia, a coordenadora de Formação de Professores e Políticas educacionais da UFJF, Maria Assunção Calderano e a professora Célia Nunes, da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), debaterão na mesa “Os desafios da formação de professores na universidade do século XXI”. A ideia é observar as mudanças no modelo de ensino dos dias atuais, e as adequações necessárias na maneira de lecionar dos docentes. A mediação fica por conta da professora do Departamento de Educação da UFJF Diva Chaves Sarmento.
Na quinta-feira, ocorrem dois debates bastante pertinentes na atualidade. O primeiro, intitulado “A universidade como fator de transformação das comunidades”, será ministrado pelo líder indígena Ailton Krenak. Já o segundo traz o líder do grupo Educafro, Frei David, para discutir as cotas. “As universidades brasileiras adotam uma meritocracia justa ou injusta? Como as ações afirmativas/cotas ajudam nesta reflexão?” será o tema da mesa mediada pelo professor do Departamento de Educação Julvan Moreira de Oliveira.
Encerrando as atividades do seminário, no dia 1º de junho, os professores Dilvo Ristoff, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Vera Lúcia Jacob Chaves, da Universidade Federal do Pará (UFPA), estarão na mesa “Perspectivas atuais para a universidade brasileira”, sob a mediação do pró-reitor de Magrone.
Segundo Magrone, a presença de docentes de diferentes instituições e de pessoas que não são ligadas diretamente à universidade é um fator enriquecedor. “Queremos palestrantes que tragam pontos de vista plurais, heterogêneos e até mesmo conflitantes com os nossos, o que é muito bom para realizar um espaço de debate”, conclui.
Outras informações: (32) 2102-3914 (Pró-reitoria de Graduação)
Fonte: http://www.ufjf.br/secom/2012/05/11/ciclo-de-palestras-e-debates-irao-repensar-a-universidade-a-partir-do-dia-28/
Escritos - Raphael Reis
sexta-feira, 11 de maio de 2012
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Quer comprar minha esposa?
Até poucos anos atrás a memória histórica da venda de esposas na Inglaterra seria bem descrita como amnésia. Quem iria querer lembrar práticas tão bárbaras? Por volta da década de 1850, quase todos os comentadores admitiam a visão de que a prática era: a) extremamente rara; b) totalmente ofensiva à moralidade. (E.P.Thompson, Costumes em Comum, Cap. 7)
Com insônia, dirigi-me ao escritório. Fui até uma das gavetas da escrivaninha e peguei um charuto. Fiquei ali sentado, olhando para o nada, até quando me lembrei de um livro que um amigo argentino me enviara no início do inverno. Esse amigo trabalhava na Rua México, especificamente na Biblioteca Nacional. Lembro-me de seu bilhete carinhoso que dizia algo como: “Cariño, sigue uno de los mejores libros que ya leí. Pero, hay un gran mistério lleno de cosas extranãs”. Ao final, havia uma nota de advertência para que quando eu acabasse de analisá-lo o remetesse aos seus cuidados.
Outono de 210
Para Jucélio Maria
* * *
Inquieto, acordei na madrugada fria do dia 23 de junho de 1986. A primeira imagem que me veio à mente foi a de um livro, porém, estava embaçada e não me recordava de seu conteúdo. Sequer sabia se eu tinha lido alguma coisa em algum momento.
Com insônia, dirigi-me ao escritório. Fui até uma das gavetas da escrivaninha e peguei um charuto. Fiquei ali sentado, olhando para o nada, até quando me lembrei de um livro que um amigo argentino me enviara no início do inverno. Esse amigo trabalhava na Rua México, especificamente na Biblioteca Nacional. Lembro-me de seu bilhete carinhoso que dizia algo como: “Cariño, sigue uno de los mejores libros que ya leí. Pero, hay un gran mistério lleno de cosas extranãs”. Ao final, havia uma nota de advertência para que quando eu acabasse de analisá-lo o remetesse aos seus cuidados.
Não dei importância ao livro, depositando-o temporariamente em uma das prateleiras que ficam no meu escritório. Estava atarefado com as pesquisas universitárias e esperando um bom momento para lê-lo e analisá-lo. Agora, na posse do estranho sonho conjugado às lembranças do livro enviado e acompanhado da tal insônia, fui buscá-lo na prateleira. Era um livro curioso; não era muito grosso, porém pesado. Não tinha título e nada que o referenciasse. Abri-o. O texto era apertado e estava em versículos divididos em duas colunas. Na parte em que abri, estava impresso no ângulo superior direito o número arábico 40. 514. Achei aquilo muito esquisito. Fechei-o novamente e abri; agora, página 50.523. Pensei que fosse efeito da insônia. Frisei o número supracitado novamente, folheei para trás e o número que apareceu foi de 213. Que numeração estranha, pensei. Interessante notar que exatamente na página supracitada havia um título chamativo: “O melhor livro de todos os tempos: melhor do que Dom Quixote de la Mancha”. Achei aquilo uma brincadeira e fechei o livro, deixando- o sobre a mesa.
Imaginei que estivesse cansado. Guardei a caixa de charutos na gaveta e apaguei a luminária. Ao sair do escritório, tive uma vontade incontrolável de ler aquele capítulo que falava sobre uma possível obra, melhor do que a de Cervantes, pois sinceramente, não creio que exista algo melhor. Não resisti; abri o livro à procura da página 213, mas não a encontrei, muito menos o tal título.
Fiquei folheando durante umas duas horas na busca desenfreada do título e página; não encontrei por mais que insistisse. Foi, então, que percebi que ali estava um livro diferente de todos os outros, um livro infinito. Não tinha começo nem fim e seu conteúdo não se repetia, mesmo que se tentasse abrir na página desejada. Por exemplo, as páginas distavam uma das outras: ora em centenas, ora em milhares. O meu primeiro impulso foi colocá-lo em um envelope e remetê-lo tão logo o dia raiasse. E foi isso mesmo que fiz, depois de observá-lo por mais algum tempo.
Agora, relatar-vos-ei um capítulo que consegui memorizar sob o título:
Venda de Esposas.
Em 1840, o jornal de Yorkshire avisava: “Este aviso é para informar que James Cole está disposto a vender a mulher Sully em leilão. Segundo ele, a mulher é decente e limpa. Tem 25 anos. A venda irá ocorrer na praça central de Yorkshire, hoje, pela tarde, exatamente às 18 horas”.
O operário James Cole saiu do trabalho, duas horas mais cedo, devido a um problema na máquina em que trabalhava. Após um dia de trabalho exaustivo, como de costume, voltou para casa, cansado e aborrecido. Ao entrar em casa, percebeu ruídos que vinham de seu quarto. Quanto mais se aproximava, escutava sua mulher em ruídos altíssimos. De imediato, abriu a porta do quarto e deparou-se com a esposa em atos libidinosos com o vizinho, Hill Harty, o ferreiro.
O ferreiro e o operário atracaram-se. Após muitos socos e sangue escorrendo por toda parte, pararam. Enquanto isso, Sully esbravejava: “Você merecia! Pensa que eu não sei que você sai com as mulheres do mercado? E tem muito tempo que você não me trata bem; me bate de vez em quando”.
Passado o momento dos ânimos acirrados, Sully sugeriu que o marido a vendesse e que o ferreiro lhe comprasse. No dia seguinte, pela manhã, James Cole colocou o anúncio supracitado. Pela tarde, trazia a esposa amarrada pela cintura com uma corda. Caminharam assim algumas milhas até chegarem à praça central de Yorkshire (James puxando Sully pela corda).
Lá, James anunciou: “Vendo aqui minha esposa. Ela é moça bonita e boa de serviço. O único defeito é que fala demais e não é confiável”.
Um jovem gritou: – Eu dou 6 pences.
– Isso não paga nem a corda, disse James sorrindo.
Do lado oposto ao casal, estava Hill Harty, o ferreiro. Este gritou: – Dou 24 pences e ¼ de barril de cerveja.
– Negócio fechado. Disse o operário. Após receber o dinheiro, devolveu a Hill 2 pences para dar sorte e desejou a ex-esposa muitas felicidades – a recíproca foi a mesma. Hill Harty tomou a corda pelas mãos e seguiu com a esposa adquirida em direção à taverna.
Na taverna, Hill, Sully e James tomaram muita cerveja, cantaram e gargalharam muito, aproveitando para ratificar a compra, com a assinatura de um documento, na presença de duas testemunhas.
Graças a Deus, o livro misterioso
já deve estar no seu lugar correto, em uma das estantes da Biblioteca Nacional, na Rua México. Findo este relato, cujos fragmentos me recordei, havia a assinatura de um tal “B”. Não tendo mais o que relatar desta admirável oportunidade de ler um livro infinito, finalizo perguntando: quer vender sua esposa?
Para Jucélio Maria
Este conto faz parte do livro
"Contos que Machado de Assis e Jorge Luis Borges Elogiaram", de Raphael
Reis.
Pontos de
Venda:
Planet Music (Av. Itamar
Franco, Juiz de Fora)
Livraria Cultura: http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=22678321&sid=1891301241421982022547167
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Coleção Folha: Literatura Ibero-Americana
No próximo domingo, chegam às bancas os dois primeiros títulos da coleção Folha Literatura Ibero-Americana.
Os 25 volumes da compilação trazem uma seleção de alguns dos mais importantes representantes da literatura de língua portuguesa e espanhola, que contribuíram para a formação estilística e para a consagração da arte literária ibero-americana.
Paradoxal desde o título, "O Livro de Areia", do argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), é o primeiro volume da série e mostra um autor dedicado a construir matematicamente o realismo fantástico que acompanharia sua obra.
É pela perspectiva de possuir um livro feito de areia, em que as páginas se formam e se desmancham (como na alegoria de uma coleção infinita de livros), que Borges guia sua narrativa ao mesmo tempo abstrata e vivencial.
Ganha destaque também a edição bilíngue de "Sonetos do Amor Obscuro e Divã do Tamarit", do poeta espanhol Federico García Lorca (1898-1936), que permite a comparação do imaginário do autor em sua língua materna e na tradução para o português.
A seleção traz ainda "Navegações e Regressos", do poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973), livro de poemas publicado originalmente em 1959 e ainda inédito no Brasil, que trata da relação de Neruda com a esperança e a percepção de sua poesia.
Seja na escrita de cunho existencialista travestida de narrativa policial de Ernesto Sábato ou no mapa da desorientação contemporânea desenhado por Miguel Sousa
Tavares, as obras reunidas demonstram algumas das possibilidades de construção que formam nossa escrita.
ENTRE ESTILOS
Por meio de temas, personagens e narradores tão diferentes entre si quanto próximos em sua familiaridade cultural, as obras mostram grande parte da história política, social e econômica, exemplos de utopias e realidades que povoam o imaginário da cultura latina.
Trata-se, portanto, de um conjunto de obras que retoma o histórico do desenvolvimento de alternativas literárias em forma de poesia, contos e romance, que faria com que a literatura latina contemporânea se consagrasse em todo o mundo.
A coleção traz autores renomados como Mario Vargas Llosa, Enrique Vila-Matas,
José Saramago, Roberto Bolaño e Mario Benedetti, entre outros, numa seleção pensada e desenvolvida para homenagear as línguas ibero-americanas.
Obras importantes de Brasil, Portugal, Argentina, Espanha, Peru, Chile, Colômbia, Cuba, México e Uruguai contribuem para o aspecto multicultural da coleção.
O conjunto de livros traz personagens envolventes que ficariam na história, todo um universo de sentimentos e poesias que prendem o leitor por sua riqueza de detalhes e vivências tão intensas que somente autores de língua latina saberiam expressar.
Confira a coleção: http://ibero.folha.com.br/colecao.html
domingo, 8 de abril de 2012
Em busca do eleitor: "Brasileiro que vota não foge à luta"
Em busca do eleitor: "Brasileiro que vota não foge à luta"
O compromisso está marcado: 7 de outubro de 2012, primeiro turno das eleições municipais. Em Minas Gerais, mais de 14 milhões de pessoas devem ir às urnas escolher prefeito, vice e vereadores para suas cidades. Em preparação para o pleito, já foi dada a largada para sensibilizar os cidadãos sobre a importância da participação neste processo. No rádio e na televisão, por exemplo, a campanha nacional da Justiça Eleitoral sobre o alistamento de eleitores é enfática: "Brasileiro que vota não foge à luta".Paralelamente, outras ações são realizadas para "fisgar" o eleitor. Com a proposta de estimular o envolvimento político de jovens entre 16 e 17 anos - inclusive por meio do cadastramento eleitoral - o Expresso Cidadania retomou as atividades em escolas da rede estadual. Até o fim de abril, o projeto pretende visitar dez cidades mineiras, levando ao público estudantil a emissão do título eleitoral. A iniciativa é resultado de parceria entre a Assembleia Legislativa, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MG) e a Secretaria de Estado da Educação.
As eleições são de interesse de toda a comunidade. Ao menos deveriam ser. Mas há quem demonstre apatia quando o assunto é a escolha dos representantes políticos. No discurso dos mais pessimistas, o direito ao voto transforma-se em um pesado fardo. As justificativas são muitas, como o desânimo frente a constantes denúncias de corrupção envolvendo homens e mulheres que deveriam lutar pelo bem comum. E é neste cenário que se justificam as campanhas para conquistar brasileiros e brasileiras, conscientizando-os sobre sua missão e poder diante da urna eletrônica.
O desinteresse é um risco, pois, como bem escreveu João Ubaldo Ribeiro, "a Política não é apenas uma coisa que envolve discursos, promessas, eleições e, como se diz frequentemente, 'muita sujeira'. Não é uma coisa distinta de nós. É a condução da nossa própria existência coletiva, com reflexos imediatos sobre nossa existência individual, nossa prosperidade ou pobreza, nossa educação ou falta de educação, nossa felicidade ou infelicidade."
Em uma conotação bastante simplória (e até reducionista, admito) de política como forma de poder, vale destacar que este poder primeiro está na ponta do dedo do eleitor. Sem clichês, mas com compromisso. Naturalmente, junto com o poder vêm as múltiplas consequências do exercício de impor obediência. Sim, é do cidadão esta missão. A autoridade do voto é intrínseca a cada eleitor, mas precisa ser bem exercida. Enquanto os partidos já se articulam para outubro, cabe a cada cidadão também se preparar, desde já, avaliando valores e instituições. Vale a reflexão. É tempo.
De olho nas datas
- O prazo para tirar, transferir e regularizar o título eleitoral termina no dia 9 de maio. Consulte aqui o endereço e o horário de atendimento ao público dos cartórios eleitorais da região.
- Já está disponível, na página do TRE-MG, o link para denúncia de propaganda eleitoral extemporânea, ou seja, aquela feita antes do dia 6 de julho, data marcada pela legislação para o início da propaganda eleitoral em geral. Saiba mais aqui.
domingo, 1 de abril de 2012
“Prefiro Não fazer”: uma forma de protesto ao Capitalismo
“Prefiro Não fazer”: uma forma de protesto ao Capitalismo
Raphael de Oliveira Reis[1]
Como já dissemos em outras oportunidades, uma boa obra é aquela que permite ao leitor um leque de interpretações, as quais são aceitas, mas nem sempre aceitáveis. Além disso, uma boa obra é aquela que nos diz algo, que faz sentido em nossa existência.
Bartleby: o escriturário, de Herman Melville (autor da famosa obra Moby Dick) é mais um livro que movimenta a criatividade dos críticos literários e do leitor comum, pois permite vários pontos de partida, bem como de chegada, devido ao comportamento atípico do protagonista Bartleby[2].
Eu, particularmente, parto da perspectiva de que o comportamento de Bartleby rompe com valores éticos, ou melhor, com o ethos do sistema capitalista, numa possível forma de “protesto”, de desencantamento; mesmo não consciente, não revolucionário, apático, mostrando a frieza das relações sociais[3] que tal sistema estabelece e reproduz como natural.
Uma das idéias principais do liberalismo é que os homens são iguais, haja vista que são proprietários (seja dos meios de produção ou de sua força de trabalho). Quando o advogado (não é mencionado o seu nome[4]), dono do escritório e narrador da história) chama Bartleby para revisar um documento, e este rompe com a normalidade aceita por todos, dizendo “Prefiro Não Fazer”, na verdade, recusa colocar a sua força de trabalho em disponibilidade, deixa de ser proprietário, logo é alguém estranho. Inclusive, essa atitude (de deixar de ser um bom trabalhador, de romper com a disciplina do trabalho, leia-se produtivo) irrita os outros dois trabalhadores do escritório, pois na divisão do trabalho há a necessidade de cooperação, para aumentar a produtividade, fazendo com que eles tentem persuadir Bartleby, mesmo que fosse necessária a violência para isso.
Porém, numa atitude racional de um homem capitalista, se assim o fosse o advogado, o mais correto seria despedi-lo, mas não consegue. Há alguma coisa em Bartleby que lhe desperta atenção.
Segue uma sucessão de ordens, no entanto, todas elas são rechaçadas com a famosa frase: "prefiro não fazer". Aumentando a pressão sobre o que fazer, o advogado tenta algumas alternativas (compaixão a la caridade cristã – dar dinheiro para que Bartleby deixasse o local de trabalho e procurasse outros afazeres -, que resolveria o problema, pelo menos do ponto de vista do advogado), porém não deu certo. Muda de escritório, contudo Bartleby permanece no prédio. Aqui há outro dado interessante: há uma fusão de Bartleby (corpo) com o espaço de trabalho, confundindo-se com o local de trabalho, não tem para onde ir. E assim, por quebrar a normalidade, Bartleby é preso como vadio (perceba que essa é uma prática que está relacionada às leis inglesas do século XVII, na Inglaterra), nas quais aqueles que não conseguiam trabalhar devido aos cercamentos, eram presos por vadiarem pelos centros urbanos.
Outro ponto do liberalismo é colocar o mercado como centro das relações, isto é, tudo é mercadoria, inclusive as relações humanas e os sentimentos. É um individualismo como valor radical, no qual as pessoas são guiadas por desejos e interesses, e não por laços de solidariedade, de interesses coletivos, e sim por interesses individuais para obterem vantagens. E não é à toa, que o título original tinha como subtítulo uma história de Wall Street (coração do mundo financeiro nos EUA).
Ao final, parece que há uma lucidez do narrador desta realidade, quando este apreende ou dá sinais de começar a compreender o humano, através de Bartleby, fazendo uma relação metafórica entre carta extraviada (para o carteiro é uma simples carta, mas para quem a receberia ou a enviou, não) com sua relação (humanidade) com Bartleby.
Ao final, as últimas palavras do narrador são: “Ele (Bartleby) era um homem a quem a prosperidade fazia mal” (grifos meus). E “Ah, Bartleby! Ah, humanidade!
Sobre Herman Melville:
[1] É Mestrando em Educação (UFJF), Especialista em Políticas Públicas e Gestão Social (UFJF) e Historiador (UFJF). É Edittor da Revista Encontro Literário e integrante do Grupo Prazer da Leitura. Atualmente, trabalha como Professor de Suporte Acadêmico no Caed-UFJF, Assessor Político e ministra cursos na área da formação do leitor e formação política.
[2] Conferir a dissertação de mestrado “Bartleby, de Herman Melville, e Begrebet Angest, de Søren Kierkegaard: possível aproximação” [Mestrado em Teoria Literária, PUCRS, 2002], de Vinícius Figueira.
[3] Ao fazer essa escolha estou excluindo outras possibilidades de análise, isto é, deixando outros ângulos de lado, porém o leitor poderá ter contato com essas outras reflexões na dissertação supracitada. Nesta perspectiva que estou adotando não percebo contradições de classe, mas sim um rompimento com o ethos do Sistema Capitalista.
[4] Creio que a ausência do nome do narrador deve-se ao fato de expandir suas características de sujeito a tantos outros que possam se identificar, ou seja, seria uma identidade coletiva.
Fonte: http://revistaencontroliterario.blogspot.com.br/2012/03/prefiro-nao-fazer-uma-forma-de-protesto.html. Acesso: abril de 2012.
Fonte: http://revistaencontroliterario.blogspot.com.br/2012/03/prefiro-nao-fazer-uma-forma-de-protesto.html. Acesso: abril de 2012.
A Metamorfose, de Franz Kafka: um convite para quebrar o mar gelado que existe dentro de nós
A Metamorfose, de Franz Kafka: um convite para quebrar o mar gelado que existe dentro de nós
Raphael de Oliveira Reis[1]
Há muito tempo que eu queria comentar sobre a obra A Metamorfose, de Franz Kafka, na nossa coluna Dica de Leitura, pois dentre os seus escritos é a obra que eu mais gosto, além de estar entre os cinco livros de minha preferência: 1-Don Quijote de la Mancha; 2- Crime e Castigo; 3- Os Irmãos Karamazov; 4- A Metamorfose; e 5- Dom Casmurro. Ainda, há uma identificação da angústia vivenciada pela personagem principal (Gregor Samsa) frente as situações que lhe aparece, principalmente com a figura do pai.
A Metamorfose é uma das mais pertubadoras narrativas da História da Literatura, a qual faz com que se quebre o mar gelado que existe dentro de nós, e isto, em simplesmente 80 páginas!
Foi escrita em 1912, mas sua publicação aconteceu em 1918. De lá pra cá, despertou interesse dos mais eminentes críticos e autores, tais como: Albert Camus, Deleuze, Guattari, Sartre, Adorno, Borges, etc, que apontam e tentam discurtir sua complexidade.
É comum na estrutura narrativa de Kafka (ver também o livro O Processo), um começo impactante, do clímax, como se a personagem principal tivesse projetado de um longo pesadelo. No caso de A Metamorfose, Gregor Samsa acorda e precebe-se que se transformou em algo diferente, após sonhos intranquilos. E esse algo diferente, nada mais do que uma transformação em um inseto, especificamente em uma barata. No entanto, essa metamorfose se dá de forma natural, num ambiente sem interferência sobrenatural, uma transformação rápida e sem causa exterior – só o incomoda por não poder cumprir com sua rotina de trabalho.
Segundo Merçon (2006, 13)
a novela de Franz Kafka inaugura, cada uma a partir de sua perspectiva particular, duas questões incomuns de ordem antropocultural, moral e até mesmo existencial no seio do ambiente familiar. Do ponto de vista do indivíduo, a questão é: I) como lidar com a inusitada situação de se ver repentinamente metamorfoseado num ‘inseto monstruoso’? do ponto de vista de vista da coletividade que rodeia esse indivíduo, a questão se resume em: II) lidar com a presença inesperada e inevitável desse estranho ser no espaço íntimo do lar?
Em resumo, o problema central não é a transformação do filho (Gregor), e sim como lidar com algo (fisicamente) diferente e repugnante, embora com “essência” do humano e respectiva ligação familiar, e se virar financeiramente, já que quem era o provedor da família está impedido de trabalhar - já não pode mais sustentar os demais membros (pai, mãe e a irmã).
Gregor era caixeiro-viajante, vendedor de tecidos, único provedor da família, visto que os empreendimentos comerciais do pai não lograram êxito. Devido as exigências de sua profissão acordava cedo (5 horas da manhã), para enfrentar longas viagens de trem, levando-o a um distanciamento de outras práticas do cotidiano (como, por exemplo, lazer, religiosidade, amizades, etc), dedicando-se exclusivamente ao trabalho e ao esforço de que todos pudessem esquecer a desgraça que a família fora cometida, com a falência comercial do pai.
Dedicado à família e ao trabalho, Gregor se torna em um sujeito que deve executar aquilo que lhe é previsto, imposto, invés daquilo que realmente deseja (aquí fica a crítica ao sistema capitalista, o qual padroniza comportamentos e rotiniza o ser humano, o confundido com o objeto, ou melhor, com o objeto da produção).
Os seus familiares (pai, mãe e irmã) ficam passivos perante essa situação, esperando tudo de Gregor, porém após a metamorfose cada um terá que se virar, e de fato se viram, suas “limitações” se rompem.
Com a metamorfose (um desejo inconsciente de Gregor?) a normalidade é quebrada, isto é, fica impedido de cumprir suas tarefas no trabalho e de provedor da família, como já dissemos anteriormente. Assim será cobrado duramente pela família e pelo chefe. Sua transformação em um inseto é uma metáfora que mostra uma quebra com o mundo burocrático e de exploração do trabalho – o inseto não poderia fazer as tarefas mais simples do cotidiano como se levantar da cama.
Com essa situação supracitada, há um repúdio da família a Gregor, fazendo com que ele se afastasse em seu quarto, totalmente isolado de tudo e de todos, com contato restrito. Mesmo que sua vontade e pensamento fosse de humano, sua comunicação e físico lhe impedia de interagir com os demais membros, fazendo, inclusive, ser rechaçado e até ser agradido, como foi o caso do pai que lhe atirou um pedaço de maça em suas costas, quando de sua tentativa de sair do quarto para a sala, fato este estremamente angustiante e que marcará Gregor até o seu fim.
Outra cena marcante e que define a essência da obra é quando sua irmã Grete diz ao pai:
[…] É o único jeito, pai. O senhor precisa se desfazer da ideia de que aquilo é Gregor. Acreditar nisso, durante muito tempo, tem sido a nossa desgraça. Como pode ser Gregor? Se fosse, há muito teria percebido que seres humanos não podem viver com um bicho como aquele. E teria partido por conta própria. Perderíamos o irmão, mas poderíamos continuar vivendo com o verdadeiro Gregor em nossa memória, para sempre. (Kafka, 2010, 70-71).
E o final dessa narrativa?... Fica o convite ao leitor para quebrar o mar gelado que existe dentro de nós…
Obs.: Kafka quando terminou de escrever esse livro, como de costume, leu o 1º capítulo para alguns amigos, mas a leitura foi recebida com risos…
Sobre Franz Kafka
Nasceu em 3 de julho de 1883, em Praga, República Tcheca, cidade esta que contempla uma vasta e linda arquitetura medieval, e “sombria” por sinal (alguma influência em seus escritos?)
Teve dois irmãos que morreram antes de seu nascimento e 3 irmãs que morreram em campo de concentração, em 1940.
Um dos traços biográficos de Kafka é sua relação tensa com o pai, Herman Kafka, pois se via fracassado diante as espectativas paternas, além de outros traumas de infância como, por exemplo, quando pede ao pai um copo de àgua à noite e o mesmo lhe fecha numa varanda escura.
A pesar da regra básica de que não se deve fazer uma relação direta entre obra literária e dados biográficos, podemos apontar que a construção da A Metamorfose, em alguns elementos, foram retirados das suas experiências pessoais do cotidiano com a figura do pai. No seu livro de memória, Carta ao Pai, Kafka diz que: “eu era para ele um nada dessa espécie”.
Queria fazer filosofia, mas seu pai não deixou porque não dava retorno financeiro. Fez química (lembrando que a Alemanha se tornou a principal potência nesta área – Kafka viveu boa parte de sua vida na Alemanha e suas obras foram escritas em alemão), no entanto abandonou e foi fazer direito, formando-se em 1906 (aproveitou para cursar aulas de literatura, as quais eram sua paixão). Sobre isso diz certa vez: “tudo que não é literatura me aborrece”.
Sua vida amorosa também foi atribulada. Ficou noivo de Felice Bauer 2 vezes em menos de 5 anos, e teve outros relacionamentos malsucedidos.
Sua saúde era muito debilitada, contraiu turbeculose, a qual fez com que fosse internado em vários sanatórios para tratamento. Morreu jovem, aos 40 anos, em 1924.
Uma curiosidade é que suas obras quase ficaram no esquecimento e até mesmo correram o risco de serem destruídas, se não fosse o seu amigo Max Brod. Kafka teria lhe solicitado que queimasse todos os seus escritos, com exceção de O Veredicto, A Metamorfose, Na Colônia Penal, Um Médico da Província e o conto Um Artista de Fome. Contudo, Max Brod não o obedeceu e fez uma grande empreitada para publicar as demais obras (entre elas O Processo e O castelo).
Seu estilo, segundo o crítico literário Edgar carone, “é marcadamente seco, cartorial, com descrição pormenorizadas e tratando de eventos inesperados, quando não impossíveis”, como vimos na nossa dica de leitura acima.
Referências:
KAFKA, Franz. A Metamorfose. São Paulo: Ed. Abril, 2010.
MERÇON, Francisco Elias Simão. Uma Leitura Analística da Novela “A Metamorfose”, de Franz Kafka. Dissertação apresentada ao Departamento de Linguística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, São Paulo, 2006.
[1] É Mestrando em Educação (PPGE-UFJF), Especialista em Políticas Públicas e Gestão Social (UFJF) e Graduado em História (UFJF). Atualmente, trabalha como Professor de Suporte Acadêmico no Caed-UFJF, Assessor Político e ministra cursos de formação do leitor e formação política.
Fonte: http://revistaencontroliterario.blogspot.com.br/2012/03/metamorfose-de-fraz-kafka-um-convite.html. Acesso: março de 2012.
Fonte: http://revistaencontroliterario.blogspot.com.br/2012/03/metamorfose-de-fraz-kafka-um-convite.html. Acesso: março de 2012.
Poesia Pérsia: o Rubaiyat, de Omar Khayyan
Poesia Pérsia: o Rubaiyat, de Omar Khayyan
A poesia não é menos misteriosa que os outros elementos do orbe. Tal ou qual verso afortunado não pode envaidecer-nos, porque é dom do Acaso ou do Espírito; só os erros são nossos. (Borges, Elogio a Sombra, 1969)
Particularmente, em minhas leituras, sempre privilegiei os gêneros conto e romance, pois tinha dificuldades em ler poesias.
Na época em que cursei a disciplina Literatura Espanhola (UFJF), a professora Silvina Carrizo detectou a chave desta questão, dizendo: “você não pode querer racionalizar todas as poesias; muitas poesias são para ser sentidas”. Isto de fato ficou gravado em minha memória e a cada obra de poesia lida a partir deste momento, fazia um esforço para sentir e não racionalizar. Porém, confesso que somente a partir dos Rubaiyat, de Omar Khayyam, que consegui sentir a poesia com naturalidade. Claro, isso pode estar aliado a 3 temáticas que aparecem em boa parte de seus Rubaiyat, e que me fascinam, a saber: a vida, a mulher e no meio destes dois, o vinho.
O verdadeiro nome de Omar Khayyan era Ghiyath Al Din Abul Fateh Omar Ibn Ibrahim Al Khayyan e nasceu em Nishapur, a capital provincial de Khurasan em torno de 1044 e morreu em Bishapur, em 1123. Foi matemático, astrônomo, filósofo, médico e poeta persa – a partir de 1935, a Pérsia passou a ser denominada Irã.A álgebra foi o primeiro campo no qual fez grandes contribuições, fez uma tentativa de classificar a maioria das equações algébricas, incluindo as equações de terceiro grau. Desenvolveu também a expansão binomial quando o expoente é um inteiro positivo. Foi considerado o primeiro a encontrar o teorema binomial e determinar coeficientes binominais. Na geometria, estudou generalidades de Euclides, contribuindo assim com a teoria das linhas paralelas.
Suas contribuições a outros campos da ciência incluem um estudo das generalidades de Euclides, do desenvolvimento dos métodos para a determinação exata da gravidade específica. Na metafísica, escreveu três livros: Risala, Dar Wujud e o Nauruz-namah recentemente descoberto. Era também um astrônomo de renome e um médico.
Apesar de ser um cientista, Omar Khayyan era também um ótimo poeta, e foi com a poesia que tornou-se conhecido mundialmente, em 1839, quando Edward Fitzgerald publicou uma tradução inglesa de seu Rubaiyat.
Este se tornou em um dos clássicos mais populares da literatura mundial. Deve-se considerar que é praticamente impossível traduzir exatamente todo o trabalho literário em outra língua, principalmente na língua árabe e seguindo a métrica que o persa utilizou para compor seu Rubaiyat. Apesar destas dificuldades, a popularidade da tradução do Rubaiyat indicaria a riqueza de seu pensamento.
Uma das coisas mais interessantes neste livro, aliás, o que acontece com os bons livros, são os múltiplos níveis de interpretação que ele permite ao leitor. Da maneira como é escrito, uma seqüência de 120 quadras, sendo que cada quadra contém dois primeiros versos rimados, o terceiro verso é livre e o quarto volta com a rima. No entanto, ao se traduzir, é dificílimo manter as rimas entre os dois primeiros versos com o quarto verso, embora isso não seja um empecilho para o deleite da poesia de Omar Khayyan.
O vinho, símbolo principal da obra, o qualprovoca a embriaguez, condenado tão veementemente pelo islamismo e adorado pela antiguidade romana, cujo representa o hedonismo, a sensualidade, a ignorância e o contato mais suave com a mulher e com o amor.
Além dessas questões supracitadas, não poderia deixar de mencionar a criativa intextualidade do genial e enigmático escritor argentino, Jorge Luis Borges, em seu livro “Elogio a Sombra”, de 1969, onde homenageia o autor persa com o seguinte Rubaiyat:
Volte em minha voz a métrica do persa
A recordar que o tempo é a diversa
Trama de sonhos ávidos que somos
E que o secreto Sonhador dispersa.
Volte a afirmar que é a cinza o fogo,
A carne o pó, o rio o fugidio
Reflexo de tua vida e de minha vida
Que lentamente se nos esvai logo.
Volte a afirmar que o árduo monumento
Que constrói a soberba é como o vento
Que passa e que, à luz inconcebível
De Quem perdura, um século é um momento
Volte a advertir que o rouxinol de ouro
Canta uma única vez no sonoro
Ápice da noite e que os astros
Avaros não prodigam seu tesouro.
Volte a lua ao verso que tua mão
Escreve como transforma no temporão
Azul o teu jardim. A mesma lua
Desse jardim há de procurar-te em vão.
Sejam sob a lua das ternas
Tardes teu humilde exemplo as cisternas,
Em cujo espelho de água se repetem
Umas poucas imagens eternas.
Que a lua do persa e os incertos
Ouros dos crepúsculos desertos
Voltem. Hoje é ontem. És os outros
Cujo rosto é o pó. És os mortos.
Enfim, deixo-vos com um aperitivo de alguns poemas do Rubaiyat, de Omar Khayyan:
1
Nunca murmurei uma prece,
nem escondi os meus pecados.
Ignoro se existe uma Justiça, ou Misericórdia;
mas não desespero: sou um homem sincero.
9
Que pobre o coração que não sabe amar
e não conhece o delírio da paixão.
Se não amas, que sol pode te aquecer,
ou que lua te consolar?
14
Tenho igual desprezo por libertinos ou devotos.
Quem irá dizer se terão o Céu ou o Inferno?
Conheces alguém que visitou esses lugares?
E ainda queres encher o mar com pedras?
21
Cristãos, judeus, muçulmanos, rezam,
com medo do inferno; mas se realmente soubessem
dos segredos de Deus, não iam plantar
as mesquinhas sementes do medo e da súplica.
26
Ninguém desvendará o Mistério. Nunca saberemos
o que se oculta por trás das aparências.
As nossas moradas são provisórias, menos aquela última.
Não vamos falar, toma o teu vinho.
37
Quando me falam das delícias que na outra vida
os eleitos irão gozar, respondo:
Confio no vinho, não em promessas;
o som dos tambores só é belo ao longe.
58
Senta-te e bebe, felicidade que Mahmud não teve.
Escuta os sussuros dos amantes, são os Salmos de Davi.
Não te importes com o passado, não sondes o futuro,
não percas este instante: Eis a paz.
66
Vinho, bálsamo para o meu coração doente,
vinho da cor das rosas, vinho perfumado
para calar a minha dor. Vinho, e o teu alaúde
de cordas de seda, minha amada.
92
Não aprendeste nada com os sábios,
mas o roçar dos lábios de uma mulher em teu peito
pode te revelar a felicidade.
Tens os dias contados. Toma vinho.
Observação: A íntegra da obra está em domínio público e pode ser facilmente baixada na internet.
[1] É Mestrando em Educação (UFJF), Especialista em Políticas Públicas (UFJF), e Graduado em História (UFJF). Trabalha como Professor de Suporte Acadêmico no Caed-UFJF, Editor na Revista Encontro Literário, Assessor Político e Consultor na área de Formação do Leitor e Formação Política.
Fonte: http://revistaencontroliterario.blogspot.com.br/2012/02/poesia-persia-o-rubaiyat-de-omar.html. Acesso: fevereiro de 2012.
Fonte: http://revistaencontroliterario.blogspot.com.br/2012/02/poesia-persia-o-rubaiyat-de-omar.html. Acesso: fevereiro de 2012.
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